"Ainda nem é tabu porque não se fala nisso"

A sexualidade, em pessoas com deficiência, consegue trazer para cima da mesa muitos mais preconceitos para além do que o tema traz. Catarina Oliveira e Nuno Meireles sofrem com as limitações físicas já que necessitam de uma cadeira de rodas para se deslocarem e com as limitações enraizadas na sociedade por não os verem “como pessoas normais que têm intimidade e fazem sexo”.
Catarina Oliveira, residente desde sempre no Porto, conhecia os tabus existentes em relação ao sexo nas pessoas com deficiência, mas aos 27 anos passou a sofrer na própria pele estes preconceitos. Uma infeção na medula fez com que necessite de uma cadeira de rodas para se deslocar. O que para muitos podia ser o fim da linha, para a Catarina, hoje, com 33 anos, foi o início de algo desafiador.
A transformação foi encarada pela mesma como algo “tranquilo e consciente”. A necessidade de adaptação das atividades, porque não as conseguia fazer da mesma forma, teve de acontecer. No entanto, não deixa “de fazer nada que fazia anteriormente”, simplesmente, faz de outra forma.




Catarina Oliveira, 33 anos, no jardim da sua casa
A mudança… para melhor
Para ela, sexo é um assunto em cima da mesa, mas tem consciência de “a sexualidade de pessoas com qualquer tipo de limitação, nem chega a ser um tabu porque ainda nem é um tema”. Quando se fala, muitas são as ideias erradas que surgem e que não são resolvidas, então, são levadas pela sociedade como verdades que não o são.
A intimidade deste grupo social não é uma preocupação tida pelos profissionais de saúde e “não é algo considerado, muitas vezes, na reabilitação e nos vários tratamentos”, afirma. Nos vários processos pelos quais passam pessoas com limitações, a sexualidade é um grande pormenor que não tem qualquer tipo de atenção. Então, este processo acaba mesmo por ser uma fase em que ninguém vê as suas necessidades serem respondidas. A prática sexual também é uma necessidade mesmo que, muitas vezes, não seja encarada desta forma. “Há pessoas que não gostam, mas há muitas que gostam e isto tem de ser considerado, independentemente de ter uma lesão ou uma doença”, constata Catarina.
A lesão medular causou transformações em muitas áreas da vida da Catarina para além da física que seria a mais provável. “As coisas mudaram!”, confessa. Estudava medicina, “não era feliz”, decidiu seguir a vocação e, atualmente, é nutricionista. Portanto, mais um desafio.
Na sua intimidade, a “sensibilidade, os movimentos e o corpo” mudaram. Assim sendo, é “muito importante procurar profissionais para ajudarem na nova realidade, como uma base na mudança”. Não o fez, na altura, mas, hoje, quando aconselha alguém, esta é uma das primeiras dicas. Sem ajuda profissional foi crucial o facto de estar com uma pessoa, com a qual tinha muita confiança. “Ajudou-me a redescobrir-me”. E que descoberta!
Os seus cabelos encaracolados e o seu estilo colorido dão vida à cadeira de rodas. Ou será a cadeira de rodas que lhe dá vida a ela? Ao longo dos anos, tem percebido que, está preparada, mas “o mundo não está preparado para a minha cadeira de rodas” e tudo o que isso implica, seja físico ou não.
Foto disponibilizada pela Catarina Oliveira, 33 anos
A nutricionista tem noção de todas as suas características no dia a dia e na sua atividade sexual. “Passei a conhecer e a explorar o meu corpo de forma diferente”. Na sua opinião é algo que, “não só as pessoas com deficiência, mas também sem deficiência deveriam fazer”.
“Vamos parar de limitar a relação sexual à penetração? Podemos explorar outras áreas e o prazer ainda ser maior”
Catarina Oliveira

Porém, contra todas as expectativas sociais, as pessoas com deficiência, efetivamente, também têm relações, quer sejam elas para uma vida, quer sejam “one-night stand, nunca mais te vejo”. A nutricionista e defensora do equilíbrio encara o orgasmo com outros olhos depois da sua lesão. Será ele melhor?
As voltas que a vida dá
Se, de um lado da moeda, há pessoas como a Catarina Oliveira que, em algum momento, passaram por situações específicas que mudaram a vida como estavam habituadas, do outro lado temos pessoas como o Nuno Meireles que passou pela situação antes mesmo de nascer ou no momento do parto que definiram o rumo das suas vidas.
O Nuno de 45 anos tem paralisia cerebral que lhe afeta a parte motora. Nasceu com 7 meses devido à demora no parto, morreram algumas células que lhe condicionam os movimentos. Erradamente, a sociedade pensa que a doença do Nuno é mental, mas não, a doença é uma condição. Consegue “fazer muitas das atividades, mas de outra forma” e, neste caso, os pés são das suas maiores ferramentas.
Vive em Amarante com a sua esposa Diana Meireles de 43 anos, com a filha do casal e com o filho da Diana de uma relação anterior.
Começa-se já por aqui? Muita informação… Como assim, uma pessoa com paralisia cerebral pode estar casada? E ainda tem uma filha? O choque social! “Somos olhados de lado pela sociedade enquanto casal porque as pessoas não entendem como duas pessoas como nós se podem amar e ter respetivamente uma intimidade”, confessam em casal.
Fonte: INR com base nos Censos de 2011


Diana Meireles, 43 anos, e Nuno Meireles, 45 anos no jardim
A Diana já passou por tudo. Aos olhos de muitos já foi irmã, professora, tutora e nunca foi mãe porque a idade não permitia ter um filho da idade do Nuno. Parecia tudo “menos aquilo que era”. As pessoas ficavam muito espantadas quando dizia “sou a mulher e, há noite, também divido a cama com ele”, às vezes, “quase que tenho de fazer um desenho para mostrar que uma pessoa normativa pode gostar de uma pessoa que esteja na cadeira” afirmou a esposa.
Optou, também, por ser a cuidadora, “foi uma decisão feita por mim”, mas “sou esposa, ser cuidadora é um anexo”. Aceitou o Nuno tal e qual como ele é. No final, defende Diana “mais cedo ou mais tarde, todos nós podemos ver-nos limitados e a precisarmos de ajuda de outrem”.
Na sociedade, as pessoas com deficiência não têm muito espaço para se sentirem normais mesmo estas sabendo as condições físicas e mentais que têm. “A minha condição é mais limitadora para os outros do que para mim”, confessa Nuno. Acrescenta, ainda, “sempre aceitei muito bem a minha situação, preciso de cadeira para me mover, mas de resto sou igual a qualquer pessoa”.
No que diz respeito à intimidade concreta do casal, este garante que tudo funciona muito bem entre as quatro paredes do quarto. “Sempre falamos sobre a minha condição poder ou não afetar a nossa intimidade”, afirma Nuno. Para além disso, preocupam-se com os próprios desejos, fetiches e discutem, debatem “o que cada um acha da ideia e a disponibilidade para experimentar”.
É muito importante dar prazer aos dois no ato sexual, sendo que o prazer dos mesmos é considerado um motor. Porquê restringir o sexo a uma pequena parte do corpo? Para o casal é essencial explorar o corpo do parceiro por inteiro.
Fala comigo e eu digo-te o que quero
Na junção dos dois mundos, percebemos que uma das características que liga o Nuno à Catarina é a cadeira de rodas. Não é um equipamento que ande a 120 à hora, nem contém um frigorífico induzido, na verdade, é uma cadeira de rodas comum. Todavia, a simbologia e a liberdade que dá aos dois assemelham-se.
Mais do que pessoas com limitações na mobilidade, eles sabem com que olhos é que ambos são encarados.
São seres humanos e, como tal, também têm desejos. Mas, com as limitações físicas, quais são as posições sexuais usadas? A Diana Meireles tem a sua opinião. Defende que “há muito tempo que é necessário um Kamasutra para pessoas com deficiência”.
Tanto o casal como a Catarina refletem porque sabem que nem todas as pessoas com deficiência se mostram, quanto mais chegarem a pensar em sexo num tom mais audível socialmente. “Ainda não se veem” e têm muita dificuldade em serem ouvidas.
Joana Arantes, psicóloga da Universidade do Minho
Assim, as pessoas com limitações acabam por encarar a prostituição como uma opção. Sem a sociedade perceber,” tudo se resume a uma questão de prazer”, conclui a psicóloga. O trabalho, o desporto, a comida e o sexo. O sentimento de adrenalina inexplicável mexe com o interior de cada um. “Muitas pessoas com deficiência recorrem à prostituição para atingirem o prazer” como fazem as pessoas ditas normais. Aqui, há prostitutas que “sabem lidar com as limitações porque ouvem o que lhes dizem e tentam proporcionar uma boa experiência ao cliente” acrescenta Joana. Contrariamente à sociedade que não ouve ninguém. Também se “acredita que as pessoas com deficiência têm probabilidade de sofrer mais violência sexual” confessa Inês Melo, sexóloga que utiliza as redes sociais para descodificar muitos tabus. Acrescenta, ainda, “se é importante falar durante o ato, mais importante é comunicar no fim do mesmo”.
Diogo Ferreira, é estudante de mestrado em Sociologia e, há muito, que se interessa pelo assunto porque o “sexo é uma questão social”. Muitos são os que “acreditam que a sexualidade não deve sair da esfera pessoal”, mas esquecem-se de que “os significados que damos ao sexo veem muito do que a sociedade decide” confessa o estudante de sociologia. Como é a sociedade o elo principal na decisão, também aqui é ela que decide a representatividade que confere a qualquer elemento. Por exemplo, “na pornografia não há representatividade de pessoas com deficiência” e acabam “por infantilizar os deficientes” porque a sociedade não lhes dá o espaço que merecem.
Numa corrida que se chama vida, o preconceito tende a chegar primeiro que a verdade. Muito poucos são os que se veem a tentar manter a balança equilibrada. A Catarina, o Nuno e a Diana garantem continuar a fazer ouvir a sua voz, mesmo que seja só para aqueles que os entendem. “Deixo aqui a sementinha para os meus netos” confessa Catarina um pouco entristecida. Só veremos mudanças daqui a duas gerações?
Mais vale tarde do que nunca! Hoje, a sociedade percebeu que existem, amanhã percebe que também fazem sexo.
Diana Meireles, 43 anos, e Nuno Meireles, 45 anos são casados e têm uma filha da relação
Eles permitem-se. “Antes da cadeira”, como se houvesse dois momentos, Catarina já falava muito sobre o que gostava e do que não gostava na cama. “Depois da cadeira”, às vezes, não é fácil, “mas sinto-me à vontade de dizer do que gosto, vamos experimentar aquilo, nunca experimentamos aquilo, não estou a gostar, mais para o lado”. As vantagens são imensas porque o corpo deixa de ser visto como algo físico, mas, sim, como parte do ato. Assim, “o orgasmo é muito mais cerebral até, do que físico e, às vezes, não se atinge esse ponto máximo porque não há exploração”, confessa a nutricionista.
É uma questão de empoderamento mútuo dos elementos da relação. No caso do Nuno e da Catarina concordam que uma “pessoa sexualmente ativa é muito mais feliz”. Por isso, a comunicação que têm enquanto casal só lhes traz mais prazer, sendo que “o bom sexo torna a relação melhor e ajuda no combate do stress”.
São precisos dois para dançar o tango
São precisos dois para dançar tango, dois para o sexo… Mas existirá espaço na relação para novas experiências? E brinquedos sexuais?
“Para mim, o que serve, para os outros pode não servir” afirma Catarina. Acrescenta, ainda, que “varia muito de deficiência para deficiência”, por isso, nestas situações é aconselhável procurar ajuda profissional. O que dizem, então, os profissionais sobre a sexualidade em pessoas com deficiência?
Começando na psicologia, passando na sexologia, e acabando na sociologia percebe-se que as diferentes áreas apresentam focos diferentes, mas com resultados semelhantes. Este triângulo é crucial no momento de explorar a intimidade de cada um e ver assim algumas questões respondidas.
A psicóloga Joana Arantes afirma que as “pessoas com deficiência enfrentam dois tabus: a sexualidade e a sua condição física”. Mesmo que “hoje, haja mais sensibilização até na escola, ainda não é suficiente”.




