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Quem disse que o sexo tem idade?

Falar de sexo é um tabu que precisa de ser desmistificado, principalmente na terceira idade. Porquê negar o que de mais natural há na vida? Maria, Joaquim e Alberto, contam o quão normal é fazer sexo, independentemente da idade ou do que a sociedade possa pensar. Até porque falar de sexualidade, é também falar de saúde.

Livros sobre sexualidade

Livros sobre sexualidade

Maria Moreira foi um “sim” no meio de muitos “nãos”. Decidida como é, avisou logo que dali não iam sair fotos. A vergonha de falar sobre sexo, falou mais alto. Deitada no sofá, confortavelmente, vai conversando connosco. Dos seus 74 anos, 52 foram passados com o seu marido, Fernando, o homem da sua vida. “Nunca nos abandonamos, é a minha alma gémea” afirma. Conheceram-se no Porto, mas vieram acabar na terra natal de Maria, São Romão de Aregos, em Resende. E será que há espaço para sexo nesta relação? “Não é por sermos idosos, que não temos sexo! Por amor de Deus, nem pensar!” confessa Maria. Arrisca e diz mesmo “é uma estupidez acharem que por termos esta idade não temos sexo!”. E, com a idade, este até pode ser melhor, “no meu caso, sem sombra de dúvidas”.

A sexóloga Inês Melo corrobora este pensamento, afirmando que o sexo pode melhorar com a idade, pois a comunicação e a maturidade emocional e sexual melhoram. “Conforme a idade passa, vamos conhecendo-nos melhor e, sabendo o que nos dá mais prazer, conseguimos estar abertos para dizer ao outro do que gostamos”, refere a especialista. A comunicação potencia a relação sexual e torna-a mais prazerosa.

Quando mais nova, Maria tinha uma grande preocupação: engravidar. Não podia tomar a pílula e os métodos contracetivos eram poucos. Usava preservativo, mas o medo que este rebentasse era grande, então, até evitava ter relações sexuais. Com a menopausa, essa dificuldade deixou de existir. “Sem este problema, começa-se a ter relações livremente e à vontade! Já não há preocupações”, assegura Maria. “Não faço sexo como quando tinha 25 anos, é totalmente diferente! Mas eu gosto mais agora do que quando tinha 25 anos”, confessa às gargalhadas.

O corpo já carrega o peso da idade, mas, para Maria, apenas se trata de adaptar a relação. “Há muitas maneiras de fazer sexo, há tantas coisas”. Enquanto casal, o importante é encontrar o equilíbrio, para que ambos se sintam confortáveis para dizer que não hoje, mas que, talvez, sim amanhã. “Se me dói as costas, digo: ó Nando, hoje não e vamos organizando-nos”. O sexo não deve deixar de existir, apenas é necessário contornar as situações.

Num estudo realizado por Mariana Cambão, Lígia Sousa, Miguel Santos, Sandra Mimoso, Sara Correia, Dilermando Sobral com os utentes inscritos na Unidade de Saúde Familiar de Ramalde, foi possível concluir que os homens com idade igual ou superior a 65 anos admitem manter uma vida sexual mais ativa do que as mulheres, assim como valorizam mais o sexo do que o outro género.

O estudo confronta a ideia errada de muitos que acreditam que relações sexuais têm um limite de idade. Como afirma o sociólogo Diogo Ferreira, “a sociedade olha para o idoso como um ser inútil e mais fraco. Na sexualidade olhamos muito para o corpo. Por norma só pensamos em corpos padrão e olhamos para um idoso e não temos um apelo sexual, desprezando-os”.

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Fonte: Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar

E o prazer? “Não faço sexo por hábito! Deus me livre! Há sempre vontade de atingir o prazer, pode é demorar-se mais tempo…” No entanto, segundo o sociólogo Diogo Ferreira, o caso deste casal foge à regra, dado que “as gerações anteriores apenas viam o sexo com o objetivo de procriar, o prazer nunca era tido em conta”. Para Maria, o sexo só faz sentido porque gosta do seu marido e porque têm uma intimidade de casal em privado. “Dentro das quatro paredes do nosso quarto, nós podemos fazer aquilo que quisermos! Só nunca me interessei por experiências novas”. Brinquedos sexuais nunca entraram na sua vida, até os acha uma estupidez. “Para que é que eu vou comprar uma coisa dessas se eu tenho o natural?”

Falar sobre sexo sempre foi tabu, não vem dos dias de hoje. Maria lamenta não ter tido aulas de educação sexual, um tópico sensível de se falar quando esta era mais nova. Admite que a sua sorte foi a sua madrinha, que lhe explicou a sexualidade. Esta sorte permitiu que a sua mente se tornasse mais aberta e livre para falar destes assuntos. “Não se tem de ter vergonha. É a coisa mais natural da vida. Nós nascemos do sexo!” Mas falar de sexo para a Maria só é tão natural devido às suas vivências – saiu da aldeia e foi na boémia cidade do Porto que abriu a sua mente, assim como ao trabalhar num contexto hospitalar e a lidar com médicos que falavam sem papas na língua da “coisa mais natural da vida”.

 

Mas, afinal o que é o sexo? “É o prazer de estar com o homem que amamos. Atinge-se o orgasmo, sente-se o prazer e estamos a viver o momento. Fazer sexo por fazer para mim, não dá. Nem entendo! Sexo é com o homem que amamos”.

Desmistificar o sexo

Com encontro marcado para o final do dia de trabalho de Joaquim Araújo, já está ele apressado para o compromisso com os amigos para jogar umas cartadas. Natural de Braga, cidade onde sempre viveu os seus 62 anos, aceitou falar sobre sexo porque “não há nada mais normal que sexo”. Sem querer dar muitos detalhes da sua vida pessoal para a sua “senhora não se chatear”, Joaquim foi contando como a conheceu, enamorado.

Namoraram durante seis anos e, desde aí, nada, nem ninguém os separou. Enquanto casal e em casa, sexo não é tabu. Mas e fora daqui? “Começou a falar-se mais de sexualidade nas escolas, mas ainda evitam falar disto”. A sexóloga Inês Melo acrescenta que é necessário “quebrar todos os mitos. Atualmente, grande parte da educação está assente no proibicionismo. O ensino que é feito é de alerta, de medo, de possíveis gravidezes ou doenças sexualmente transmissíveis. E seria importante começar a educar para o afeto, para começar a perceber o corpo e os seus órgãos.” E porquê falar de jovens quando abordamos os idosos? Porque, entre ambas as gerações, trocam-se ideias e pensamentos, que permitem que se ensinem e eduquem mutuamente.

Joaquim Araújo

Joaquim Araújo durante a entrevista

Como a idade não é limite, Joaquim admite que ainda faz sexo. A frequência não tem número fixo. “Cada casal é um casal. Cada casal tem a sua maneira de ser e viver. E em minha casa não é diferente. Às vezes, eu posso querer, mas a minha esposa pode não estar disposta, aí não a pressiono”, encolhe os ombros. O cansaço do dia, após um longo dia de trabalho e de tarefas, é, muitas vezes, razão para um dos elementos do casal não estar disposto. Admite que, também, são necessárias cedências, “às vezes, insiste-se mais e lá com má vontade, faz-se”.

 

O sexo pode ser interpretado de diferentes maneiras por Joaquim – por vezes, é uma necessidade e, outras vezes, é rotina. “Enquanto não fazemos sexo, não sabemos verdadeiramente o que é. Só após experimentarmos é que percebemos efetivamente o que é. E aí pode ser um prazer” confessa relaxadamente. No entanto, não é igual para todos os casais de idosos. “Há estudos que revelam que à medida que o tempo passa, as pessoas mais velhas tendem a ter uma menor satisfação sexual”, explica Joana Arantes, psicóloga e docente na Universidade do Minho.

 

“A relação funcionava melhor se o casal fosse mais aberto. Ainda há muito receio e tabu”. Receio em experienciar coisas novas. O casal podia aproveitar mais da relação sexual se ambos perdessem a vergonha. “Por exemplo, a mulher quer experimentar algo novo, mas não vai dizer ao seu parceiro por medo do que ele pode pensar ou dizer”. A psicóloga Joana Arantes defende que “quanto mais o casal falar e desmistificar os seus pensamentos, mais à vontade passam a ter” e, assim, “passam a sentir-se mais confortáveis”.

 

Joaquim acredita que “a mulher ainda não sabe explorar o corpo que tem, os prazeres que tem. E o homem também não”. Conforme os anos vão passando, a convivência com nós próprios vai permitindo conhecer-nos melhor. “O à vontade entre o casal é muito importante, só vai melhorar a relação. Quanto mais confiança existir, mais liberdade dá a ambos de revelar o interesse em novas experiências, que depois até podem surpreender”. E é este à vontade que Joaquim deseja na sua relação, para poder experimentar coisas novas. Para tal, “a base necessária é a confiança”. Foi com base nesta confiança que Joaquim sugeriu à esposa inovar na relação sexual e recorrer a brinquedos sexuais, mas a sua companheira não aceitou. No entanto, isto não criou um problema, pois uma relação amorosa para funcionar envolve cedências de ambas as partes.

“A melhor coisa que temos na vida!”

Abriu a porta de sua casa, em Resende, com animosidade, mas também com algum receio. Recebeu-nos na sua sala, numa tarde solarenga. Descontraidamente sentado numa cadeira, Alberto Pereira, de 79 anos, começa por contar a história de amor da sua vida.

Conheceu a sua esposa de “uma maneira um tanto ou quanto arcaica. Estava numa pensão e resolvi mudar para outra. E a pessoa que me recebeu na nova pensão, foi a que é hoje minha mulher. Ela era uma miúda com 16 anos. E recebeu-me de uma forma caricata: com duas laranjas na mão” conta, com um sorriso. “Ela ajudava o pai, que era vendedor de frutas. E eu, atrevido, pedi-lhe uma laranja. Respondeu-me que eu tinha de trabalhar se a quisesse comer”, recorda saudoso. “A partir daí, comecei a trabalhar até comer a laranja e a dona da laranja”, gargalha ao relembrar-se. 52 anos depois, continuam juntos e unidos.

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Alberto Pereira na sala de sua casa

A união, para funcionar, tem de ter o que Alberto considera o mais importante numa relação: sexo. No entanto, nem todos pensam como ele, o que, por vezes, leva a relação a fracassar. “As pessoas vão desvalorizando o sexo. E uma coisa quando não se usa acaba por parar. Penso que se o sexo não for sempre feito, um dos parceiros vai falhar. E a vontade vai-se perdendo”. Para a psicóloga Joana Arantes, é necessário fazer a sociedade entender que “os desejos biológicos são normais, vem muito da parte da biologia evolutiva. É normal as pessoas terem desejos sexuais e quererem ter relações sexuais. A vida sexual faz parte da vida de todos nós, ou, pelo menos, deveria fazer, de uma maneira positiva e saudável”.

 

Os 79 anos de Alberto não se fazem sentir, “sexualmente sinto-me como se tivesse agora 30 anos”. Destaca que nunca foi afetado por nenhuma doença que impactasse a sua sexualidade, o que o ajudou a manter uma vida sexualmente ativa. Este entende que “a impotência sexual afeta muito mais o homem do que a mulher, que, após ficar impotente, a sua cabeça dá uma volta de 360° graus”. E, como “a sexualidade é a coisa mais íntima que um casal pode ter”, quando se perde tal, muitas relações ficam abaladas.

Para este, a relação sexual até é melhor do que na sua juventude, pois com 20 anos, Alberto tinha ejaculações precoces que, com o avançar da idade, conseguiu aprender a controlar “muito melhor, satisfazendo também a minha parceira”. Arrisca e diz “que todos os casais da minha idade estivessem tão bem como eu!” Com o envelhecer, muitos idosos ficam impotentes, Alberto entende que “sexo não é só penetração, mas depois é só meia sexualidade”. Mas esta opinião não é partilhada pelo sociólogo Diogo Ferreira, que defende que “a sexualidade é muito mais que o ato sexual em si, é a troca de relações muito grande que acaba por nos fazer aproximar ainda mais do outro”.

 

Relações à distância são coisa que não entra na cabeça de Alberto. “Não acredito muito que um homem que está emigrado, coloque um cinto de castidade enquanto está longe da mulher. O homem não aguenta tanto tempo sem relações sexuais”. Nem os homens mais velhos, até porque “o sexo não tem de diminuir com a idade”. Mas quanto às mulheres, a sua ideia já é diferente. “Há mulheres que com a idade o sexo reduz, devido à dificuldade que têm na penetração”. Segundo a psicóloga Joana Arantes, os problemas de saúde podem afetar ambos os géneros.

“Não há um fim para a sexualidade. Se houver vontade da minha parte e da minha mulher, podemos fazer sexo todos os dias! Até porque, para mim, o sexo é a melhor coisa que temos na vida!” E com quem se gosta, é ainda melhor. “Ao estarmos todos os dias juntos, nem damos fé de que ficamos velhos. Só quando tal, quando há paciência é que olhamos e vemos: ó mulher, tu já tens aí uma ruga. E ela diz: e tu já tens tantos cabelos brancos!” Mas o companheirismo e o amor não permitem ver estas mudanças.

 

Mas falar de sexo é tabu? “Não tenho tabu, esse tabu foi ficando para trás com o avançar da minha idade. Se calhar, aos 20 anos, não tinha esta conversa!” A maior alavanca para esta alteração de pensamento, foi mudar de uma aldeia, Resende, para uma cidade, Braga. Foi na cidade que se desenvolveu mais e percebeu que “não é preciso ter medo de falar de sexo. Falo de sexo, seja onde for e com quem for, como se falasse de uma mão ou pé aleijado”. É um assunto normal.

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