"Teoricamente, toda a gente, na prática, ninguém"
Num mundo lotado de tabus, mas onde o sexo é visto como o centro do universo de qualquer pessoa, ser assexual torna-se um obstáculo na vida de quem se identifica como tal. Para Rita Sotero e Catarina Cortez, que pertencem à comunidade assexual, é difícil compreender e ser compreendidas pelos seres sexuais.
Rita Sotero tem 22 anos, é de Cascais, porém, neste momento, estuda em Coimbra e identifica-se como assexual. Mas, afinal, o que é ser assexual? “Para mim, especificamente, não é nada”, refere esboçando um sorriso, mas, num nível geral, ser assexual é não sentir atração sexual por ninguém nunca ou no nível que se considera normal.

Rita Sotero, 22 anos, na Universidade de Coimbra

Pessoas que não sentem necessidade de ter uma relação romântica com ninguém
Pessoas que sentem atração romântico por homens e mulheres, sem a parte sexual
Pessoas que só sentem atração romântica por pessoas com quem são íntimas
Pessoas que sentem atração romântica por pessoas do género oposto
Pessoas que sentem atração romântica por pessoas do mesmo género
Pessoas que sentem atração romântica por personagens fictícias ou pessoas com as quais sabem que nunca vão ter algo
Pessoas que sentem atração romântica por todas as pessoas e podem ter várias ao mesmo tempo.
Fonte: Relatório da ACE Comunity Survey (2016), https://asexualcensus.files.wordpress.com/2018/11/2016_ace_community_survey_report.pdf
Num espetro não linear, como é o da assexualidade, existem diversos graus, que vão desde repudiar o sexo por completo e, até, sentir nojo por quaisquer atos relacionados a ter relações sexuais para manter um relacionamento romântico com alguém. Rita considera-se “panrromântica assexual” porque sente “atração romântica por tudo e todos”, ou seja, consegue “criar um laço romântico com qualquer pessoa”, mas não tem “qualquer atração sexual”.
Segundo a jovem, o sexo não é algo que a assusta nem algo que repudia, simplesmente se tiver outra coisa para fazer, prefere “fazer um bolo ou sair”. Com um sorriso de orelha a orelha, acrescenta, ainda, que se julga uma pessoa “hiper-romântica”, considera-se, também, “uma pessoa que preferia viver a vida acompanhada por alguém, porém, sem a parte sexual”.
Para a académica estar com pessoas é fenomenal, o problema surge quando lhes diz que não há qualquer tipo de atração sexual. “Muitas vezes, a pessoa aceita e diz que está tudo bem, mas não está tudo bem. Já estive com pessoas que tiveram uma descida de autoestima por não sentirem o meu afeto”, confessa de forma assertiva.
Rita sempre desconfiou da sua orientação sexual, porém, só aos 17 anos, estando numa relação na época, é que descobriu que não tinha os mesmos desejos que o parceiro. “A maneira como eu me sentia em relação ao meu parceiro não era a maneira como o meu parceiro se sentia em relação a mim e isso foi alvo de inúmeros debates”, disse balançando os pés e apoiando as mãos no muro da Faculdade de Psicologia da Universidade de Coimbra.
Como estudante de psicologia, acha fascinante observar e saber o que os seus amigos pensam sobre a sexualidade e o que é o sexo para eles, porque, para ela, é algo inexplicável e incompreensível. Entre o esvoaçar dos pombos e o intervalo das aulas que parecia não ter fim, Rita confessa que tem imensa curiosidade em perceber a sexualidade através de conversas com amigos e das suas próprias relações. “Eu não percebo a sexualidade de todo, mas acho muito interessante. Acho que é algo que por não entender, porque não me atrai, gosto de perceber por fora, pelos outros”, afirma entusiasmada.

Rita Sotero, 22 anos, a ler um poema
Mas e a sociedade? O que pensa ela sobre a assexualidade?
Para esta questão Catarina Cortez, tem uma resposta simples. Sentada numa cadeira de escritório, Catarina diz que a sociedade vê a assexualidade como algo anormal. A nível social, a assexualidade “é algo que é visto como um problema”. Por causa da falta de atração sexual, as pessoas pensam que há algo de errado. “Ou é o contracetivo ou sou eu que tenho algo de errado ou é algo psicológico”, acrescenta.
Catarina Cortez tem 26 anos, trabalha em Braga e, tal como Rita, também se identifica como assexual. A questão da assexualidade foi algo que entrou recentemente na sua vida e é um tema com o qual ainda se está a habituar a viver, porém, desde sempre, desconfiou de que tinha algo de diferente. “Quando era adolescente e as minhas amigas começavam a vida sexual e comentavam sobre isso, eu só pensava que era ótimo, mas não estava nem aí, não tinha interesse nenhum. Basicamente, deixava andar”, declara a jovem.

Catarina Cortez, 26 anos, no escritório
Contudo, com a entrada em relacionamentos e com o passar dos anos, Catarina sentiu necessidade de se conhecer a este nível. Por isso, começou a investigar sobre o assunto e a ler testemunhos de outros indivíduos. “Uma pessoa questiona-se sobre essas coisas quando começa a dar problemas nas relações”, confessa enquanto entrelaça o cabelo por detrás da orelha.
Para além de ser um tema com o qual a jovem ainda busca intimidade e compreensão, falar sobre ele com outras pessoas, inclusive amigas, não é algo que lhe dê conforto. Sempre que, porventura, o assunto surgia, arrependia-se de imediato e acabava a conversa. “Quando eu falava com elas sobre não achar alguém atraente e iniciava o assunto, elas diziam que devia ir ao médico ou ao psicólogo”, afere. “A verdade é que eu sempre fui mais tímida, e então era só para ter a certeza de que era mesmo isso que eu sentia. E como não era o tipo de coisas que eu gostava de ouvir, muitas vezes concordava e terminava a conversa”, conclui esboçando um sorriso e balouçando na cadeira.
A maior parte das pessoas associa a assexualidade a um distúrbio psicológico. A sociedade criou um estigma sobre os assexuais, atribuindo-lhes um sentido de anormalidade ou associando-lhes algum trauma passado. “O que posso dizer pelo que leio na internet e ouço, tanto de amigos como de pessoas, no geral, é que o feedback sobre a assexualidade nunca é muito bom”, diz Catarina, suspirando.
“Nasce connosco, nós somos assim!”
Segundo a psicóloga e docente na Universidade do Minho, Joana Arantes, em Portugal, há uma prevalência de 0,5% a 2% de pessoas assexuais. “Tendemos a achar que os assexuais têm aumentado o número, porque ouvimos falar sobre eles”, refere a especialista no conforto do seu escritório. No entanto, se formos a fundo nesta questão, rapidamente se percebe que o que aumentou foi a aceitação de grande parte da população sobre alguns assuntos e o à vontade das pessoas em falar sobre eles.

Fonte: Relatório da ACE Comunity Survey (2016), https://asexualcensus.files.wordpress.com/2018/11/2016_ace_community_survey_report.pdf
“Embora pareça que tenha aumentado o número de assexuais, o que tem aumentado é a sensibilização e as pessoas estão mais confortáveis a falar sobre isso. Atualmente, já se fala muito”
Joana arantes
Tendo por base os seus estudos, a psicóloga diz que a assexualidade é “uma orientação sexual como a heterossexualidade, bissexualidade, etc” e que, por isso, se vai tornando mais notável na puberdade. “Normalmente, na fase da adolescência quando os amigos começam a namorar ou acham alguém bonito, as pessoas começam a estranhar, porque não sentem essa atração sexual e é aí que buscam ajuda profissional”, declara.
Numa tentativa de descobrir ou até tratar o que está “errado” com eles, os assexuais acabam por recorrer à ajuda de profissionais. “Muitas vezes eles procuram-nos por motivos diferentes e acabam por tocar no assunto”, conta Joana, “a maior parte das pessoas assexuais costuma procurar acompanhamento para se descobrir”, termina.
O que é a assexualidade?
Para Rita Sotero, o maior obstáculo em afirmar-se como assexual, estava bastante relacionado com o pensamento da família sobre a sexualidade. “A minha mãe sempre foi muito sexual e nós somos muito abertos em relação a isso, falamos bastante sobre sexo”, inicia a jovem. “Mas lembro-me de que, no final da minha primeira relação, com 16 anos, a minha mãe me perguntou-me se nós chegamos a fazer sexo e eu respondi que não”, conta entusiasmada e a sorrir. “A primeira coisa que ela me disse foi, pronto, então, se calhar, foi por causa disso! A minha mãe demorou imenso tempo a perceber que não ser sexualmente atraída por alguém não era uma doença”, reflete Rita.
“A sociedade tem muito a visão de que há algo errado”, refere a estudante. Enquanto assexual que gosta de falar sobre o tema e informar-se acerca dele, ouve muitas vezes as expressões “se calhar não encontraste a pessoa certa” ou “se calhar gostas de pessoas mais altas” ou “se calhar não é bem assim”. Porém, a estudante discorda, por completo, destas expressões e pensamentos. “As pessoas não fazem ideia da minha experiência nem dos meus gostos”, diz a académica, sorrindo de forma sarcástica. Para Rita “a parte sexual, simplesmente, não é algo que tenha valor”, afirma, assertivamente. “Quando eu olho para um corpo nu, não me vem nada, não sinto nada!”, confessa encolhendo os ombros.
No círculo enorme que a assexualidade abrange, todos têm algo em comum, a falta de atração sexual. Segundo Rita, pessoas assexuais têm níveis de libido diferentes e, como, tal desejo sexual mais ou menos existente ou em casos extremos inexistente. A jovem explica, fazendo gestos com as mãos, que “a pessoa fica excitada na mesma, os nervos existem, a diferença é que não é direcionado a alguém”, diz. “Há imensos assexuais que se sentem sexualmente atraídos por personagens de livros e filmes, porque não é real. Se a pessoa fosse real isso não acontecia, isto é, teoricamente, toda a gente, na prática, ninguém”, afirma com as sobrancelhas franzidas.
Segura do que sentia, Catarina Cortez confidencia que a assexualidade “é uma coisa que sempre esteve lá”, é algo inato, não tem nada a ver com experiências traumáticas ou passadas.
“Eu nunca tive interesse e continuo sem interesse. Portanto, acho que não tem a ver com ser tímida ou ter tido uma experiência má. Nasce connosco, nós somos assim!”
Catarina Cortez
Um entrave para os relacionamentos
Atualmente, um dos pontos que dita se uma relação entre duas pessoas é saudável é a frequência com que fazem sexo ou põe em prática a sua sexualidade. Este pensamento, enraizado na maioria da sociedade, torna-se um obstáculo para os relacionamentos de assexuais que tenham interesses românticos para com alguém.
Joana Arantes alerta para o facto de muitas das vezes pessoas assexuais se forçarem a ter relações sexuais para manter um relacionamento, de modo a satisfazerem o parceiro. “Alguns assexuais têm relações sexuais esporádicas e outros mais periódicas, não para se satisfazerem a si próprios, muitas das vezes porque querem satisfazer o parceiro amoroso e acabam por ter alguma satisfação nessa satisfação do parceiro ou parceira”, afere a especialista.

joana arantes, Psicóloga da Universidade do Minho
Tal como Rita e Catarina, ser assexual não retira a carga amorosa da relação, muitas pessoas que se identificam como assexuais têm necessidade de se relacionar com alguém a nível romântico. “Não é por ser assexual que não se sente atração romântica por alguém”, afirma a psicóloga. Do seu ponto de vista, uma pessoa pertencente a este espetro “pode gostar de ir ao cinema, andar de mão dada, de uma ligação mais romântica e emocional, mas tudo que passa a contacto físico eles têm uma aversão enorme”.
Para Joana, quanto menor for o desejo sexual da pessoa, menor será a sua satisfação sexual e menor a sua satisfação dentro do relacionamento “principalmente, se um assexual estiver num relacionamento com alguém com um desejo sexual normativo ou hiperativo”. O ato sexual em pessoas assexuais acaba por não ser algo que lhes proporciona um grande nível de prazer, porém, é muitas vezes necessário para satisfazer o parceiro.
Catarina Cortez descreve o ato sexual como algo que a aproxima do parceiro romântico. Para a jovem “é uma forma de intimidade” e quando sente que precisa de se aproximar mais dele, que só o nível físico consegue fazer “aí entram as relações sexuais”. Acrescenta, também, que não é algo que consiga fazer “por desporto” ou funciona “como uma forma de intimidade ou não existe”.
Enquanto assexual que necessita da parte romântica das relações, Catarina conta a sua experiência em relações passadas. A jovem descreve o ato sexual como algo prazeroso e importante para o parceiro e, por isso, quando efetivamente cede e acaba por satisfazer o parceiro, esquece-se de si por momentos e está “atenta à parte dele”. “Eu quero que ele esteja bem! Estou com ele e quero estar próxima dele, portanto, naquele momento eu esqueço-me de mim, eu não estou lá”, completa.
Para a estudante Rita Sotero, o problema, mais uma vez, é o mesmo. “É algo problemático”, refere entrelaçando os dedos das mãos. Com o intuito de manter relacionamentos a estudante de psicologia também cedia algumas vezes. “É dar um bocadinho de mim e a pessoa dar um bocadinho dela”, afirma. Esta cedência de ambos os lados é algo necessário para continuar com a relação, segundo a académica, se for algo que deixe as pessoas estáveis a nível psicológico e emocional.
“Tive um relacionamento de três anos e meio e, para mim, não era saudável estar a forçar-me a fazer algo que não quero”
Rita Sotero
No que diz respeito a futuros relacionamentos, a jovem diz que, de momento, está numa fase em que se entrar numa relação será com alguém que aceite que Rita “pode nunca querer ter sexo ou ter sexo uma vez por ano ou durante seis meses ter sexo todas as semanas”. A estudante confessa que todo o stress e ansiedade que lhe causa o ato não compensa e que, por isso, não tem pressa nem interesse, nesta fase da sua vida, em entrar numa relação. Catarina admite, também, que os seus planos de vida, neste momento, não incluem relações e que “nos próximos trinta anos” não pretende ter alguém. “Estou bem assim!”, confidencia sorrindo e suspirando de alívio.